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GUARAPUAVA: Professores estaduais participam de debate na Rádio Cultura

A redução de aulas na rede estadual de educação nas disciplinas de filosofia, arte e sociologia foi a pauta da edição especial do programa -O Assunto é Notícia-, conduzido pelo jornalista Cléber Moletta.

08/02/2021

Na manhã do último sábado, dia 6 de fevereiro, a Rádio Cultura promoveu um debate com os professores da rede estadual de ensino que trabalham em Guarapuava, Thalyta Souza, João Carlos de Souza e Daniel Piaceski.

Na ocasião, os educadores falaram sobre a redução do número de aulas das disciplinas de filosofia, sociologia e arte por parta da Secretaria da Estadual de Educação e do Esporte do Paraná (SEED-PR).

O comunicado da alteração da matriz curricular foi publicado na página do governo do Estado no dia 21 de dezembro do ano passado e diz o seguinte:

Educação unifica a matriz curricular do Ensino Médio

Os alunos do Ensino Médio da rede pública estadual de ensino vão ganhar uma nova matriz de aulas em 2021. As escolas terão uma Matriz Curricular única, isto é, a distribuição de carga horária das disciplinas será a mesma para todas as escolas.

Ao equiparar as matrizes das escolas, busca-se um modelo de sucesso, tal qual o do Ensino Fundamental. “Os alunos do Ensino Fundamental, do 9º ano, apresentaram o melhor desempenho de todo o Brasil no Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica). A matriz ser igual em todo o Estado é um dos elementos que ajudaram na melhoria da aprendizagem”, afirma o Diretor de Educação da Secretaria de Estado da Educação e do Esporte (Seed-PR), Roni Miranda. “As mudanças garantem que os estudantes terão acesso a todas as disciplinas da base nacional comum em todas as séries”, explica.

Entre as alterações previstas, por exemplo, está a garantia de quatro aulas semanais de Língua Portuguesa e três de Matemática, o que hoje não acontece em toda a rede estadual. Isso vai permitir um maior aprofundamento dessas disciplinas em vários colégios.

Além disso, será implantada no Ensino Médio a disciplina de Educação Financeira, em que os alunos aprenderão a ter um uso mais consciente do dinheiro. “O aluno aprenderá os diferentes tipos de juros existentes no mercado, como organizar as contas da casa e como não ceder à tentação do consumo compulsivo ou de impulso”, ressalta o diretor.

Para ajustar a matriz, foi alterada a carga horária de algumas disciplinas, como Sociologia e Filosofia. Nessas duas disciplinas houve redução da quantidade de aulas; no entanto, esses professores poderão ministrar aulas de outras disciplinas, desde que tenham a habilitação necessária.

Indígenas e Quilombolas – As alterações feitas na matriz curricular não afetarão as especificidades das escolas indígenas e quilombolas.

REAÇÃO

A mudança considerada brusca e sem nenhuma discussão com os alunos, os pais e a comunidade, gerou desconforto e rejeição, principalmente nos professores dessas disciplinas que, a partir de agora, terão que dobrar o número de turmas para manterem a carga horária para a qual são contratados.

SOBRE OS DEBATEDORES

Thalyta Souza é professora de arte e atua na escola Pedro Carli, em Guarapuava há 12 anos. Ela também é mestre em arte pela Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC).

João Carlos de Souza, é professor há 16 nos. Ele possui graduação em geografia, pela Universidade Estadual do Centro Oeste (UNICENTRO), em história, pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e em sociologia pela Faculdade Guarapuava, além de possuir especializações nas áreas ambiental e educação especial. Atualmente, faz mestrado em geografia pela UNICENTRO. Atua no colégio Estadual Tupy Pinheiro, em Guarapuava e na escola privada Assunção de Nossa Senhora, ambos em Guarapuava.  

Daniel Piaceski é formado em filosofia e serviço social pela Universidade Estadual do Centro Oeste (UNICENTRO) e mestre em educação pela mesma universidade. É professor há mais de dez anos e trabalha no colégio Visconde de Guarapuava, lecionando a disciplina de filosofia.

O convite para participar do debate foi estendido também à Secretaria de Educação e do Esporte do Paraná SEED-PR, mas a pasta não enviou nenhum representante, encaminhando apenas um áudio onde uma servidora do departamento curricular leu um documento falando da alteração da matriz. O material foi veiculado no programa.

Durante o debate de uma hora, os três profissionais da educação discorreram sobre os problemas e perdas para o ensino que a diminuição na carga horária acarretará.

Segundo contou Daniel, a redução do número de aulas resultará em um impacto muito grande no fim do curso, uma vez que não haverá como o estudante retomar o conteúdo perdido. “Se pensarmos, inicialmente no trabalho do profissional, antes tínhamos uma hora e quarenta minutos de aula. Com esta redução, teremos agora, por semana, apenas cinquenta minutos. Com isso, todo o conteúdo terá que ser reduzido também. Levando-se em conta que algumas dessas aulas precisarão ser separadas para avaliação, recuperação e retomada de conteúdo, os estudantes terão uma defasagem daquilo que eles poderiam ter acesso com aquelas duas aulas semanais. Afora isso, hoje, para eu pegar minhas vinte horas aula semanais, eu tenho que dar aula em quinze turmas de filosofia do ensino médio. Ou seja, antes eu teria em torno de trezentos e vinte alunos para fechar vinte hora, mas hoje, eu terei mais de seiscentos alunos para que eu possa trabalhar”, pontuou Daniel.

A redução, conforme os professores, vai gerar um grande distanciamento entre o educador e o aluno, uma vez que o tempo de permanência na sala de aula foi reduzido em cinquenta por cento. Com isso, saber as especificidades de cada estudante, se tornou tarefa praticamente impossível. “Antes eu tinha duas aulas (por semana) e, com isso, um contato maior e eu poderia atender de forma mais personalizada esses estudantes. Com uma aula, isso se torna cada vez mais difícil, levando-se em conta ainda, que nossas turmas giram em torno de quarenta alunos (por sala)”, complementou Piaceski.

Thalyta, por sua vez, ressaltou que mesmo antes da mudança, essas três disciplinas já tinham carga horária reduzidas em comparação com as demais. Para ela, o que já era um problema em se tratando de trabalhar os conteúdos, se tornou agora uma tarefa impossível de ser cumprida no que diz respeito à matería e ao aprendizado dos estudantes. “É bom ressaltar que esta equiparação já não existia e agora, o que estava ruim, piorou. Nós já lutávamos com o excesso de trabalho, tendo duas aulas. Se você pensar, como o professor (Daniel) falou, este número é muito grande. Aí, quando você pega uma aula, com o tempo relativo de você aplicar uma avaliação e de corrigir, não dá tempo dessa interação tão aprofundada com os alunos. Fica uma coisa mais mecânica. Não se consegue aprofundar no estudo. O professor não consegue conhecer seu aluno. Esse tempo de cinquenta minutos por semana, além de aumentar o trabalho do professor, faz com que o aluno tenha uma perda muito grande em relação à percepção de mundo que essas disciplinas trazem”, pontuou Thalyta.

João Carlos levou em conta a adequação do tempo do professor na preparação das aulas. Ele, assim como os outros colegas presentes no debate, enfatizou que haverá perdas irreparáveis tanto no aprendizado do aluno quanto no trabalho do professor, uma vez que o desgaste desse profissional será o dobro, se comparado com o que ocorria antes, tendo em vista a redução do tempo e o aumento do número de turmas. “Com certeza eu não vou conseguir trabalhar todo o conteúdo que precisa nesse tempo. Cinquenta minutos é um tempo muito curto. Duas aulas já era um tempo muito reduzido, em relação às outras disciplinas e agora, com cinquenta minutos, fica praticamente inviável você passar para o aluno o que ele deveria ter contemplado durante o ensino médio”, sublinhou João, que emendou: “Em relação ao número reduzido de aulas, como o próprio documento diz (da Secretaria da Educação e do Esporte SEED-PR), não há base legal nem científica que justifique tal mudança. Não houve debate, não houve nenhuma comunicação prévia com os pais, com os alunos, e, muito menos com os professores para se tomar esta decisão. Então, nesse sentido, o número de aulas reduzido vai prejudicar a condução do trabalho do professor e o entendimento dos alunos estudantes do ensino médio, que estão se preparando para o mundo do trabalho e, talvez, para uma vida acadêmica que vai ficar prejudicada no futuro”.

Os professores das três disciplinas com número de aulas reduzido, enfatizam que nunca houve a intenção de provar que essas matérias são mais importantes do que as outras, uma vez que se lutou tanto para que houvesse equidade em relação às demais disciplinas. O que a classe cobra, conforme observou Daniel, é que haja dinâmica e respeito para com o conhecimento, para com o estudo, em si. “Nós não estamos aqui querendo dizer que nossas disciplinas não mais importantes do que as demais. Muito pelo contrário. Entendemos que todas as disciplinas que lá estão fazendo parte do currículo, são importantes e elas se complementam. Todas tratam do conhecimento. Nós lutamos por essa equidade de número (de aulas). No mínimo duas aulas de cada disciplina, com exceção do ensino religioso, que no fundamental é uma aula apenas, todas as outras, tinham duas aulas. Isso é o mínimo que nós precisamos (duas aulas) para trabalharmos o nosso conteúdo e termos uma qualidade dentro desse processo, para trazer isso para a sala de aula”.

Filosofia, arte e sociologia, conforme lembram os professores, são disciplinas que exigem a total participação e interação dos alunos. Para que isso ocorra, o fator tempo é fundamental, conforme detalha Daniel. “Nossas disciplinas são dialogadas e exigem a participação do aluno efetivamente. Nós precisamos dessa interação com o estudante e, cinquenta minutos, isso é muito reduzido”, observou.

A falta de democracia por parte do governo do Estado, de acordo com os professores, foi ainda mais prejudicial, uma vez que não se chamou os envolvidos para uma discussão, para se estudar o problema. Eles lembram que, a partir do dia 18 de dezembro do ano passado, simplesmente se determinou que a grade curricular seria mudada, à revelia de qualquer contestação. “O governo do Estado não agiu de forma democrática. Ele não colocou para a comunidade se a comunidade gostaria, se ela concordaria com essa mudança”, recordou Daniel.

Questionados pelo jornalista em relação ao aumento do número de aulas, uma vez que antes as três disciplinas eram aplicadas apenas no primeiro ano, eles rebateram que o que está em jogo não é o número de aulas, mas sim, a qualidade do ensino e a equiparação em relação às outras matérias. “Aqui, a discussão não é nem tanto a perda dos professores, em terem que ir a muitas turmas, mas sim, a qualidade da aula. Anteriormente, havia duas aulas que poderia ser trabalhado o conteúdo de uma forma aprofundada. Havia espaço para o aluno criar. Em duas aulas, era possível fazer isso. Em um aula, a parte de produção, por exemplo, não vai ser possível”, discorreu Thalyta.

 

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