03/02/2016 08:05:00 - Colunistas

Canto da liberdade

Por Jossan Karsten

Com fome, o sabiá entrou no alçapão.

Horrível labirinto de grades metálicas.

Não havia comida, só migalhas. Debateu-se.

Sentiu fortes dores. O corpo ficou esfolado.

Machucou-se muito. Sangrou. A noite avançou.

Lá fora, a amada chorava. Nada podia fazer.

Caiu a noite tenebrosa. A mata escureceu.

Não dormiu. Queria sair, voar, ver o dia.

Precisava ganhar a vida. Não nascera para aquilo.

 

Ledo engano. Chegou um caçador pançudo.

Apanhador de sabiá. Mercantilista.

Levou-o junto com outros pássaros.

Faram em uma caminhonete horrível.

A amada voou o quanto pôde, mas não resistiu.

Precisava voltar para a mata. Cantou em despedida.

Entraram naquela imensidão de cidade. Fria cidade.

Não havia árvores. Ele não via a lua. Lamento dos pássaros.

Nada de comida. Nada de água. A dor era intensa.

 

Foram depositados em um lugar mais fétido ainda.

Sem comer, estava fraco. Cambaleava. Morreria.

Começaram a jogar coisas. Eram pássaros mortos.

Arrepiou-se. “Eles morrem mesmo”, gritou o pançudo.

Chegou um homem barbudo. Ele viu do alçapão.

Jogou notas na mão do pançudo. Levaram-no dali.

Meteram-no em uma gaiola maior. Deram comida.

Intragável aquilo. Não cantava. Estava muito triste.

Começou a saltar debatendo-se na gaiola. Verteu sangue.

 

“Maldito pássaro que não canta. Vou devolver!”, gritou o homem.

Esbravejava. Jogou um pano sobre a gaiola. Viu a escuridão.

A comida passou a ser regrada. A água, também.

Percebeu que morreria de inanição. Tinha os sonhos livres.

Sabia que não adiantava se debater. Só sofrimento.

Um dia, tiraram o pano da gaiola. A luz o cegou.

Por instinto, soltou a voz e o barbudo correu de onde estava.

“Maldito! Você canta sim, é só te deixar com fome!”, falou.

“Vou trancar a gaiola de novo. Pelo jeito, não vai morrer”, redarguiu.

 

Pensava que não sabia mais voar. Sentia tudo acabado.

Antes que o homem voltasse, tentou saltar.

Estava condicionado à gaiola, ao espaço minúsculo.

Voava só até certa altura, mas queria mais.

Juntando todas as forças, avançou para além da marca.

O barbudo chegava com o pano, mas ele foi mais rápido.

Saiu daquela gaiola horrível, escapuliu pela janela.

Sobrevoou a cidade naquele fim de tarde com sol vermelho.

Desnorteado, parou em uma árvore e respirou.

 

A liberdade não tem preço. Ele aprendeu.

Por vezes, se cai em armadilhas, sem querer.

Sabiá encontrou um amigo pardal que lhe ajudou.

Na manhã seguinte, estava em casa, na floresta.

A amada lhe esperava, pois o amor a tudo supera.

Recebeu tratamento e agora está renovado.

Chegarão filhos e ele teme por suas liberdades, pelas vidas.

Sabiá fica atento aos alçapões traiçoeiros, às agruras.

Gosta de cantar, mas só a liberdade lhe instiga a isso.

 

Jossan Karsten

 

[Jossan]