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30 mil árvores podem ser derrubadas para construção de linha de energia entre Pinhão e Guarapuava

Serão 238 torres e 116 km de cabos elétricos instalados para nova linha de transmissão.

07/08/2020

Reportagem: Cléber Moletta.

Das margens do Rio Iguaçu, em Pinhão, partindo de uma das Subestações da Usina de Foz do Areia - a 12ª maior Hidrelétrica do Brasil em capacidade de geração, cabos de uma nova linha de transmissão de energia vão cortar 116 km até chegar em Guarapuava, onde uma nova subestação está em obras. Nesse trajeto, serão 238 torres metálicas para sustentar os cabos. Nos pontos onde cada uma delas for instalada e em uma margem de até 46 metros abaixo das linhas parte da vegetação será cortada.

A empresa Engie – de capital aberto e com sede na França – recebeu autorização florestal para derrubar 30.072 árvores nativas nesse trecho da obra, incluindo espécies em extinção. O Instituto Água e Terra (IAT), que concedeu a autorização para multinacional, afirma que serão 34 hectares de desmatamento.

A partir da próxima segunda-feira (10), a Rádio Cultura vai publicar uma série de reportagens sobre a obra. Foram ouvidos representantes da empresa, de produtores rurais, especialistas no segmento de energia, ambientalistas e cientistas que avaliam diferentes aspectos da obra. Acompanhe em 94h3Mhz, no site, aplicativo e pelas redes sociais da Rádio Cultura.

Para erguer as torres a empresa pode derrubar, com autorização do IAT, até 1893 araucárias, também conhecido como pinheiro, árvore símbolo do Paraná e gravemente ameaçada de extinção. Outras 1812 imbuias poderão ser derrubadas, espécie também sob ameaça de desaparecer.

As árvores que não forem derrubadas para dar lugar a torres, poderão ser cortadas se estiverem abaixo dos cabos e até mesmo para viabilizar a colocação dos fios, com abertura de estradas e passagem de equipamentos pesados usados para instalar a rede.

A empresa Engie assegura que estudou 15 traçados para instalar as torres e que chegou ao melhor trajeto, que segundo a empresa causará menor impacto. Tudo teve a anuência do IAT, que emitiu licenças e informou à reportagem da Rádio Cultura ter feito “diversas sugestões” e “que foi aprovado foi o melhor traçado com o menor impacto”.

“São considerados uma série de aspectos técnicos, ambientais e sociais bastante rigorosos para chegar a um traçado que minimiza o impacto. Na verdade, nós temos 15 traçados que foram sendo ajustados até chegarmos ao que temos hoje e que está sendo implementado”, disse à Rádio Cultura Marcio Daian Neves, diretor de implantação do Sistema de Transmissão Gralha Azul.

Ela ainda afirmou que as torres usadas no empreendimento são mais altas, o que pode minimizar o impacto evitando o corte de algumas árvores. Também informou que a empresa estuda a possibilidade de usar drones para instalar os cabos em alguns trechos, o que poderia evitar impactos, sobretudo em áreas mais sensíveis, como rios.

As linhas não passam sobre comunidades indígenas, quilombolas, faxinais e nenhuma edificação, como casas e galpões.

Caberá ao IAT averiguar se a empresa cumprirá as condicionantes e recuperará a área afetada, com plantio ou compras de mudas, como prevê a legislação.

Falhas no licenciamento

Considerada pela regulamentação federal uma obra de menor impacto, a linha de 238Kv entre Guarapuava e Pinhão é menos exigente no que diz respeito ao licenciamento. O dono do empreendimento deve apresentar um Relatório Ambiental Simplificado (RAS) mostrando a realidade ambiental na região, avaliando os impactos que podem ocorrer com a obra e prevendo medidas de diminuição dos impactos ruins.

A pedido da reportagem da Rádio Cultura, o geógrafo Maurício Camargo Filho, doutor em geomorfologia, professor e pesquisador na Unicentro e com experiência na análise de documentos de licenciamento ambiental, fez uma avaliação preliminar do documento. Segundo ele, ainda que siga as normas legais, o relatório é superficial e deixou de prever alguns possíveis impactos.

“O que me preocupa são os trabalhos baseados somente na bibliografia, com poucos trabalhos de campo”, disse Maurício.

“Sobre a fauna, não consegui detectar nenhum trabalho que pegasse da todas as estações do ano, acompanhamento de animais, de percursos. Também não vi nenhum levantamento in loco sobre os rios e canais fluviais que estão próximos ao empreendimento, e que a própria RAS informa que se não forem tomadas medidas de contenção, uma grande quantidade de sedimentos podem acabar no rio”, afirmou Maurício.

Ele afirma que poderiam ter sido feitos estudos para medir quanto de sedimento podem atingir os corpos hídricos, algo que certamente vai ocorrer com a abertura de acessos para os locais das torres e para colocação dos cabos.

“Isso é de suma importância, porque nós temos uma fauna nos rios que, no meu entendimento, é desprezada. Os crustáceos, que vivem nas corredeiras, se você saturar de sedimento você elimina essa fauna. Nós nos preocupamos com peixes, mas temos outras faunas, a microfauna e microbiota do canal fluvial, como vai se comportar com essa carga de sedimento que está chegando?”, questionou.

Medir o impacto, na avaliação do professor, ajudaria a definir a melhor forma de mitigar os prejuízos ambientais causados pela obra.

“Quando nós passamos uma linha de transmissão nós deixamos uma faixa desmatada, para segurança, isso pode interferir na migração de animais sazonais que vão passar pela área, que talvez não se sintam seguros, mas não sabemos quais são esses animais, a não ser pelos dados bibliográficos”, ressaltou Maurício.  

Na avaliação dele, é possível que essa faixa de servidão seja um bloqueio para animais. Mas, sem um estudo isso não pode ser estimado.

Outro impacto direto é o desmatamento, que pode chegar a 30 mil árvores nativas. “Mesmo que ela esteja em estágio médio de regeneração, nós vamos jogar ela em nível zero. Se é nível médio, significa que ela já foi devastada e está em recuperação. Mas, não vejo como justificativa para derrubada somente porque está em regeneração”, avaliou.

Isso porque, os remanescentes em nível médio são importantes para recuperar espécies, abrigar animais e proteger o solo.

Segundo o professor, anteriormente o então Instituto Ambiental do Paraná (IAP), sucedido pelo IAT, pedia avaliações das Universidades, o que poderia dar segurança maior aos empreendedores e a sociedade, com uma avaliação independente. Na avaliação dele, ao menos esses pontos deveriam ser revistos no processo de licenciamento.

Engie

Já a Engie assegura que todas as exigências para o licenciamento da obra foram cumpridas e asseguram o menor impacto ambiental. Novas reportagens detalhando a posição da empresa serão publicadas ao longo da próxima semana pela Rádio Cultura.

Fotos: Cléber Moletta.

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